quinta-feira, 13 de julho de 2017

O Colecionador de Gente

Como bom canceriano, sou um colecionador nato.  Completando hoje 54 anos, tento focar minha crônica anual de aniversário (tenho uma coleção delas, clique na hashtag Aniversário, lá no rodapé desse texto e conheça as outras) exatamente neste vício, por assim dizer.


Você não se torna um colecionador. É algo inerente em algumas pessoas. Nem me dei conta de quando tudo começou. Talvez lá pelos 7 anos, quando ganhei minha primeira coleção de livros: a obra de Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, em capa dura (como o da foto abaixo), de cor vermelha. Praticamente me alfabetizei em meio às aventuras de Pedrinho, Narizinho e Emília. E absorvi a essência dos personagens pelos anos seguintes. Antes de viajar pra Grécia, em 1988, presenteei a coleção a um sobrinho.


Os livros me levaram aos gibis. Cheguei a ter uma coleção com mais de 500 gibis da Disney e Maurício de Sousa, e alguns da Marvel e DC Comics! Chorei quando meu pai disse que não poderíamos trazer as revistas na viagem pra Santarém, quando tinha 15 anos! Acabei distribuindo as revistas (que enchiam uma caixa de papelão de geladeira) pros amigos da vizinhança. Mas trouxe comigo duas coleções que também iniciei na pré-adolescência: a de vinis (LPs e compactos) e de times de botão! 

A primeira cresceu e foi melhorando de qualidade, com meu amadurecimento. Ainda hoje tenho uns 300 vinis, guardados numa caixa (foto abaixo). Os mais antigos são de música grega, que herdei do meu pai, até o dia em que cometi um ato rebelde e comprei um compacto simples do Raul Seixas, que acabava de ser lançado nos anos 1970 com o clássico GITÁ! Contei essa história noutra crônica que pode ser lida clicando AQUI! Chico Buarque é destaque na coleção, logicamente (tenho T-O-D-O-S dele!).


Já a coleção de botões ainda usei por um bom tempo. Realizei campeonatos e ensinei garotos que aqui conheci e que não sabiam a maravilha do que é jogar botão. Pena que um dia viajei para Europa e quando retornei ao Brasil, a caixa com mais de 20 times havia sumido durante uma mudança. Um dia ainda refaço essa coleção!

Outra coleção que se perdeu quando viajei para a terra de meu pai, a Grécia (entre 1988 e 1991) foi a de revistas masculinas, principalmente a Playboy!!! Minha geração foi reprimida sexualmente pela censura da Ditadura, e quando liberou geral não tinha neguinho que não comprasse a Playboy do mês! Alguém acabou jogando fora mais de 100 revistas, enquanto eu estava do outro lado do oceano! Mas consegui reconstituir parte da coleção que guardo até hoje (consegui salvá-las, até hoje, nos dois casamentos!).

Já colecionei coisas bizarras como carteiras de cigarro (que juntava na rua, quando moleque), chaves (das dezenas de casas que aluguei), armações de óculos (das muitas que usei) e mais recentemente rolhas de vinho (foto abaixo), que ainda guardo numa garrafa de vidro. Já colecionei cachorros e até ratos (esses últimos, na verdade, me colecionaram, sendo os bichos mais asquerosos que sempre me perseguem pra onde vou e já acabaram com algumas de minhas coleções...).


E tenho coleção de jornais antigos, muitos jornais, revistas, panfletos, santinhos de candidatos e todo tipo de papel. Tenho caixas cheias, hoje mal organizadas, que vez por outra sofrem ameaças domésticas de incineração. Como estou de férias, me comprometi (mais uma vez) de arrumá-las até 31 de julho...

A compulsão em colecionar suscita estudos mais acurados. Antes de começar a escrever esta crônica, pesquisei na internet e encontrei alguns textos interessantes para tentar entender porque padeço disso. Um desses textos diz que “o colecionismo, além da ideia básica de entretenimento, é uma arte e uma ciência e desenvolve o aprendizado, sendo uma atividade cultural por excelência”. (Leia mais aqui: http://www.abrafite.com.br/artigo14.htm)

Já outro artigo apresenta estudos psicológicos de pessoas como Sigmund Freud (ele mesmo um colecionador de gravatas, como a da foto abaixo) que acredita ter como origem um trauma na infância. “Uma criança que faz xixi ou cocô na rua, na cama, com força suficiente para gerar um trauma grande o bastante para fazer a pessoa adulta colecionar com o intuito de controle ou mesmo na tentativa de voltar no tempo” (Leia mais aqui: https://vidadecolecionador.wordpress.com/2014/04/04/por-que-colecionamos/)!  Será???


Ao ler essa tese, lembrei que meu pai contava de uma viagem que fez comigo pro Rio de Janeiro, quando eu tinha dois anos. Lá, passeamos no bondinho do Pão de Açúcar e ele, ainda solteiro, começou a se engraçar de uma bela carioca. Quando a coisa estava ficando mais séria e o grego se preparava para roubar um beijinho, eu estraguei tudo com uma boa dose de excrementos (estava sem fralda...rs) que sujou o casal!!! Provavelmente levei um grande “ralho” dele que perdeu o broto, mas será que foi isso que me tornou um colecionador?

Deixando de lado essas divagações, fiquei sabendo nas pesquisas que os naturalistas foram precursores na arte de colecionar objetos. O italiano Ulisse Aldrovandi (foto abaixo) foi o primeiro deles e lá por 1572 começou uma coleção de “ovos de pássaros bizarros, minerais, estranhos chifres, amostras de plantas e até mesmo o cadáver de um filhote de dragão!”. Chegou a ter mais de 20 mil itens em seu acervo (Leia mais aqui: https://papodehomem.com.br/colecao-por-que-gostamos-tanto-de-colecionar-coisas/)!


Mas há quem diga que o hábito é ainda mais antigo. “É bem provável que o homem pré-histórico já tivesse, num cantinho da caverna, uma coleção de crânios como talismãs”, diz um dos autores que pesquisei. Ele analisa essa compulsão e chega a dizer que “um colecionador, mesmo quando obtém uma raridade não sente seu desejo atenuado. Na verdade, nada é mais triste, para um colecionador, que pensar em completar uma coleção”. E conclui citando outro historiador: “quando as mãos seguram a nova aquisição, os olhos já vislumbram a próxima peça” (Leia mais aqui: http://josearnaldo.blogspot.com.br/2008/01/colees-entenda-por-que-as-pessoas.html ).

No site do Wikipedia encontrei, inclusive, uma relação de nomes para cada tipo de colecionador, alguns muito estranhos. Se você que está me lendo e tem, por exemplo, o estranho hábito de colecionar pacotes de açúcar você não passa de um PERIGLICÓFILO! Clique AQUI e veja outros tipos de colecionadores...

Mas “o hábito de colecionar pode tomar tempo e energia da pessoa, além de consumir muito dinheiro”, diz outro artigo pesquisado cheio de referências bíblicas. Nele, o autor chega a questionar se “deve o cristão permitir que o fascínio por algum hobby se torne tão profundo que o leve a extremos que são insensatos e constrangedores? Não, pois a Bíblia exorta-nos a manter-nos equilibrados”. Me senti um pecador sem perdão. Como não tenho religião, fiquei mais tranquilo. (Leia mais aqui: https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102004890). 

Voltando à origem astrológica, um dia li num livro da Linda Goodman (expert internacional nessa área, na foto abaixo) que o perfil do canceriano é ser “um arqueólogo da mente”. Os amigos que me conhecem sabem que tenho uma grande capacidade de memorizar fatos do cotidiano, principalmente nos quais eu me envolvo. Na minha “coleção de memórias”, a mais antiga é de quando tinha cinco anos e fui conhecer meu irmão caçula na maternidade. Mas apesar de saber de cor o nome científico - e quilométrico - da Cibalena (Dimetilaminofenildimetilpirazolona), que aprendi quando moleque, as noites de insônia andam matando alguns neurônios e me dificultam lembrar onde deixei o carro estacionado...


Hoje mantenho algumas coleções em meu acervo, com mais de uma centena de CDs e DVDs, livros diversos e gibis da Marvel com encadernamento especial. E incentivei a caçula Nicole a colecionar bolinhas de acrílico (eu adorava elas quando era pequeno, mas não cheguei a colecionar) e bonecos em miniatura.






Mas existe uma coleção de todas que eu tenho, que eu mais prezo: a COLEÇÃO DE GENTE. Sim, sou um Colecionador de Gente. Não como o maníaco do filme O Colecionador (de 1965, dirigido por William Wyler, com Terence Stamp, cartaz abaixo), que colecionava borboletas e se apaixonou por uma linda jovem e a raptou para juntar à sua coleção. Nem tampouco o colecionador obsessivo de aromas do filme Perfume, a história de um assassino (de 2006, dirigido por Tom Tykwer, com Ben Whishaw), que mata mulheres para lhes extrair a essência.




Minha coleção de gente é feita de filhos, de mulheres que amei, de parentes distantes, de pessoas com quem concordei ou discordei, de amigos e colegas de ideais com os quais desenvolvo um altruísmo quase suicida. Tenho também os amigos virtuais que me acompanham pela internet e que aprovam ou não o que digo, mas em sua maioria me respeitam. Tenho coleção de adversários e alguns poucos inimigos (quem diz que não os tem, mente), que servem como contraponto para não me sentir perfeito.

Aliás, é a busca do equilíbrio e da sensatez que me faz querer mais e mais amigos. Não como Roberto Carlos. Não apenas milhões de amigos. Mais milhões de emoções que deles irradiam.


Há 54 anos cultivo essa coleção quase de forma automática. Gosto de cultivar olhares à distância, absorver essências, conversar, trocar confidências ou chorar. E principalmente fazer poesias, baseadas em toda essa gente. Meu Eu-lírico se deixa flutuar para entender toda essa gente que eu coleciono. Talvez nunca consiga chegar a uma conclusão do porque dessa humanidade – incluindo eu – queiramos nos destruir.

Preciso continuar o mister de ser um Colecionador de Gente. Junto com essas pessoas, coleciono segundos, minutos, horas. Coleciono o tempo, como se meu coração fosse uma ampulheta de emoções.


Quero ainda ter forças para continuar essa coleção e fazer dela a maior de todas, antes que eu comece a última coleção que nos sufocará um dia: a de terra, muita terra, que há de nos envolver num último acalanto da natureza...


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